#24. Abril de 2026
Lançamentos, descobertas e shows do último mês: Alice Caymmi, Anitta, BUHR, Fabio Brazza, Jáder, Paola Lappicy, Sofia Malta, Thiago Elñino e mais
Vocês não conseguem imaginar como a vida durante abril foi, objetivamente, um massacre de sonhos e ilusões. Foi graças a cada single, faixa ou álbum listados nesta postagem, em especial a quantidade e qualidade absurdamente insanas dos lançamentos do mês, que não me sinto subjetivamente massacrado - a música funcionou, mais do que de costume, como tábua de salvação, então espero que a compilação possa ter ressonâncias semelhantes para vocês, de uma forma ou de outra. A intensificação de idas a shows (confiram ao final da newsletter, mas infelizmente vou ficar devendo as descrições semidensas - o fôlego acabou e já estava no limite do tamanho permitido), mesmo diante de tantos compromissos de abril (inclusive fora da cidade) também teve impactos positivos.
Como eu, vocês devem ter percebido como nos últimos anos diversos projetos estéticos (como alguns discos) e políticos (como livros, manifestos ou palavras de ordem) falam sobre “o fim do mundo”. Dependendo de como encaramos a expressão, a imagem de futuro implica pessimismo e ceticismo, o que pode inclusive desmobilizar e imobilizar politicamente, mesmo que se diga que se quer adiar tal fim do mundo. Nos projetos musicais que aqui se referem a esta imagem (como nos casos de Jader e Paola Lappicy), sinto que se trata menos do fim d’O Mundo e mais do fim de um mundo, muitas vezes pessoal ou interpessoal, como metáfora para fins de relacionamentos e reconstrução de si mesmo em novas condições: criação de mundos! Na música e na vida; me identifico.
Este mês temos: um abalo sísmico no pop global, momentaneamente trazendo para o centro da conversa a macumba e o candomblé; mas, sinto dizer que, ao decidir falar e dialogar com a linguagem (musical e religiosa) da diáspora negra, internaliza-se um parâmetro de crítica bastante exigente (e radical), o que me leva a chamar a atenção ao final da seção de destaques, para o disco que eu tenho nomeado de anti-Equilibrivm; além disso, uma neta homeageando e recriando eletrônica e lindamente as composições do avô; e um baita trabalho contracultural que aproxima musicalmente o piano e os beats eletrônicos e que poeticamente foi arrebatador, ao menos pelo viés da minha trajetória de vida.
Curiosos? Apreciem sem moderação - nada de apelo ao equilíbrio por aqui.
Quatorze lançamentos de Abril* de 2026 altamente recomendados
*todas as indicações abaixo são de abril, exceto aqueles com indicação contrária entre parêntesis
1 – [álbum] Alice Caymmi, Caymmi [RJ]
Um álbum delicioso, que encarna e exemplifica o fio condutor deste Substack: imaginação musical! A neta Alice homenageia o avô Dorival criando junto com o seu produtor, Iuri Rio Branco, versões altamente imaginativas (neste sentido específico, Caymmi é a antítese completa de Bossa Sempre Nova). Busque ouvir o disco sem ter as versões originais demasiadamente na memória, isto pode funcionar como bloqueio estético para apreciar as recriações de peito aberto. O disco consegue alcançar algo difícil: uma dialética sutil entre sacralização e profanação. De modo geral, com a voz grave de Alice, tão própria da família Caymmi, operando como fio condutor da reverência; e, de outro lado, a bateria e os beats eletrônicos de Iuri, bem como os deslizamentos inusitados de gênero musical. A língua franca aqui é o reggae, mas o que torna o disco interessante é justamente que não se trata de aplicação mecânica de fórmulas pré-estabelecidas e sim de explorar em cada caso como é possível reinventar as originais (não consegui nem sequer escolher um destaque, quase todas as faixas são ótimas ou excelentes). Uma carioca (re)visita a Bahia através de ritmos latinos e caribenhos, atualizando Dorival Caymmi - minha impressão é que as faixas funcionam tão bem pois compartilham o clima praieiro com sua intenção original, mas como novos e inusitados tons. Discaço; se não ouviram ainda, confiem em mim e corram lá!
2 – [EP] Agnes Nunes, Novela [BA]
Desde as primeiras postagens deste Substack, com os álbuns imperdíveis de 2024, tenho chamado a atenção para o trabalho de Agnes Nunes. Em microrresenha de seu show no Sesc em janeiro deste ano, previ que ela ainda seria gigante - em questão de semanas ela estava no Lollapalooza e viralizando nas redes sociais. Recentemente muitas cantoras têm lançado EPs como interlúdio entre diferentes trabalhos, geralmente acenando um relativo distanciamento com relação ao mainstream (como nos casos de Duda Beat, Rachel Reis e Marina Sena). Aqui, a função do EP parece ser outra: uma inflexão da “nova MPB” em direção ao pop; mas sem qualquer sinal de pasteurização, o que eu credito às lindas poesias de Agnes e a impecável produção de - novamente - Iuri Rio Branco. Talvez a intenção aqui seja flertar com um certo indie pop. Maior destaque para mim foi a faixa “Autodesilusão”, com seu lindo e dilacerante encerramento: “Desilusão / Amor no coração / Desilusão / Só dor no coração / Desilusão / Amor sem coração”. Já viveram este paradoxo?
3 – [álbum] Anitta, EQUILIBRIVM [RJ]
Do ponto de vista da grande indústria cultural, este foi, de longe, o maior lançamento do mês! E poderia ser muito mais do que uma mercadoria, poderia ter sido o melhor disco do ano (como foi Rock Doido no ano passado). Ainda quero escrever de forma mais profunda sobre este disco e os potenciais e bloqueios deste trabalho da Anitta. Por enquanto, fiquem com a seguinte microrresenha. EQUILIBRIVM tem três atos. O 1º ato (faixas 1 a 7) abre de forma fantástica, com Anitta comprovando que está com o radar ligado nas fronteiras da imaginação musical brasileira, circulando por macumbeats, afro-sambas, semba (estilo musical angolano recepcionado na Bahia), afrobeats, cantos de roda e de terreiro, MPB contemporânea (feats de Marina Sena, Liniker e Luedji Luna) e até reggae, mas perdendo o fôlego nos feats com Melly e Os Garotin. Já no 2º ato (faixas 8 a 10), temos um interlúdio pop latino. Trata-se de uma concessão ao mainstream, um entrelaçamento convencional entre o internacional-popular e o nacional-popular (brasilidade como produto de exportação), ponto baixo em termos de imaginação musical; aqui é onde ela se perdeu e começou a afundar o álbum, pois ela poderia ter articulado de modo original a estrutura de sentimento da brasilidade-plural com protagonismo da religiosidade afro-brasileira e a latinidade que está sendo “redescoberta” desde o fenômeno Bad Bunny; talvez tenha faltado ela mapear quem já está fazendo isto muito bem: artistas norte-nordestinos. Penso aqui principalmente no paraense Aqno e na potiguar LEOA. Mas, no fundo, no fundo, valeu nestas faixas mais o cálculo mercadológico da internacionalização da carreira do que o princípio de experimentação da imaginação musical (ou seja, neste momento específico do disco, o projeto estético foi abertamente subordinado ao projeto mercantil). Por fim, no 3º ato (faixas 11 a 14), Anitta retoma o fôlego, primeiro articulando a MPC, a Música Popular Carioca (o funk anos 1990 de Papatinho), e o rap em suas vertentes paulistana (Rincon Sapiência) e carioca (Ebony). Ressalto como é curiosa a opção de jogar o feat com a Shakira (“Choka Choka”) para este ato e não para o anterior, mas faz bastante sentido! O sincretismo entre funk e reggaeton é intermediado por um batuque afropercussivo – nada a ver com o pop latino enlatado e misturado com bossa nova convencional que marcam o ato anterior. Por último, a faixa que ela adiantou de modo disruptivo na Globo (“Meia Noite”), em pleno Domingo de Páscoa, uma exaltação da pombagira. A 15ª faixa constitui um Epílogo. Seria a música que mais justificaria o título relacionado a equilíbrio, mas é uma longa mensagem coach-zen com ela como narradora (sem o talento de uma Maria Bethânia) e uma sonoridade orientalista no fundo, o que não fez a minha cabeça, assim como não consegui enxergar a conexão com as poesias das 14 faixas anteriores. Em breve ainda vou desenvolver mais como esta faixa, intitulada “Ouro”, é um desastre conceitual e, portanto, um escândalo estético, político e “teológico”. Por ora, apenas pulem esta última faixa e simplesmente apreciem os samples de “Canto de Ossanha” (Vinicius de Moraes e Baden Powell) e “Cordeiro de Nanã” (Tincoãs), sem contar os macumbeats; vocês não vão se arrepender de dar uma chance!
4 – [álbum] Betto Pereira, Murrada Sound [MA]
Grata surpresa do mês: Betto Pereira elabora musicalmente a porosidade das fronteiras entre Maranhão e Pará - o Meio-Norte, que articula Maranhão e Piauí (e que é chamado informalmente de “Piranhão” - obrigado Leo Freire pela referência!) surge como território privilegiado para explorar a sonoridade da coalizão Norte-Nordeste, bem como revelar a latinidade e caribenidade desta aliança musical… Além de artista plástico, Betto Pereira fez sucesso nos anos 1990, em uma cena que ficou na época conhecida como MPM: Música Popular Maranhense (obrigado Paulão pelos esclarecimentos!). Chegando no tempo presente, seu projeto estético passa a dialogar com muito do que a nova geração, em torno do coletivo Criola Beat (como Adnon, Enme, Núbia e o próprio Paulão), tem buscado: a articulação entre os beats eletrôncos e os batuques do tambor de crioula. Destaque musical e poético para mim foi, de longe, a faixa “Catita”: “Catita minha fada insensata / Teu desprezo maltrata / Upa! / O mundo ainda vai te trair / Já te esqueci / Não vou segurar essa barra / Quem bate a porta sou eu / Tô saindo pra farra / Foi tudo um rompante do amor / Uma paixão atrevida (ai ai ai) / Me fez perder o compasso / Foi tudo um rompante do amor / A atração desmedida / O teu nome é fracasso”.
5 – [álbum] BUHR, Feixe de Fogo [BA-PE]
BUHR é o novo nome da artista antes conhecida como Karina Buhr - agora se identificando como uma pessoa não-binária. O álbum nasce de um trânsito entre diferentes estados (BA, PE, CE e SP), bem como de sua transição: “Busco motivos nas ruas entupidas de carro / Esvaziadas de gente / Como quem procura raízes / Como quem procura raízes”. A língua franca é o reggae, embora sempre tratando suas normas e convenções como horizonte criativo, não como prisão (ela também dialoga com xote e rock, por exemplo). Participações da cantora Josyara e dos guitarristas Fernando Catatau e Arto Lindsay, dentre outros. Sonoramente, minha favorita é a faixa “Vale Brinde”, linda; mas, poeticamente, meu destaque é a faixa de encerramento, “Desmotivacional”, com participação de Russo Passapusso (cantor da banda BaianaSystem), um necessário manifesto anti-coach: “Chegou pedindo um beijo / Saiu faltando abraço / Amor de fevereiro / Bateu maré de março / A casa é de azulejo / O telhado é de vidro / Se quer ganhar no grito vai faltar mais um pedaço / E leva eu / Faltando um pedaço, grita / Nunca é tarde pra desistir de você”.
6 – [single] Eduardo Barbosa & Lambada da Serpente, “Guitarrada do Sal” [PA, DF e RN]
Lambada da Serpente é um novo exemplo de um Centro-Oeste com orientações nortistas (como a banda Calorosa, destacada na última newsletter). Aproveito para recomendar o ótimo perfil de Eduardo Barbosa, conhecido no Instagram como homem.sem.classe; ele realiza um trabalho muito sério como pesquisador e influenciador musical, focando na história recente da música paraense, com destaque para a lambada, mas também passeando pela guitarrada, merengue, zouk e todas as vertentes do brega, demonstrando toda a latinidade e caribenidade do Pará.
7 – [single] Fabio Brazza & Paiva Prod, “A Cobrança” (mar. 2026) [SP]
Um brilhante sincretismo entre samba e rap. O lançamento foi pensado em um ano e um dia específicos: 2026 temos Copa do Mundo (em junho/julho), sem contar a escolha de 31 de março não ter sido aleatória, tendo em vista que se trata da data oficial do golpe militar de 1964 (“Será que esse camisa agora se redime / Ou vai continuar símbolo de quem pedia a volta do regime?”, vulgo ditadura). O brilhantismo é musical, mas também poético. O protagonista se chama “R” (o que tem dupla função: de um lado se refere a tantos jogadores brasileiros negros que entraram para a História e cujos nomes começam com R - Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho - e, de outro, permite os inteligentes versos “Vai R, Vai R / Não erre, não”). A poesia se desdobra brilhantemente por conta de sua capacidade narrativa, mais especificamente uma descrição cinematográfica que oscila entre duas perspectivas temporais: o imediato (a cobrança do último pênalti na final da Copa do Mundo entre a seleção brasileira e um time indeterminado) e a longa duração (uma viagem da consciência histórica e social do jogador acerca das desigualdades sociais e raciais que estruturam este território e sociedade chamados “Brasil”). Como canta Fabio Brazza, “um filme passa em sua mente” - tanto na mente do eu lírico, quanto de quem escuta a música, que consegue mergulhar perfeitamente na cena singular do campo de futebol e no contexto histórico-universal da colonialidade. Este (nada) singelo single mobiliza o que eu tenho chamado em minhas aulas na FGV Arte e no CCI/Cebrap de uma estrutura de sentimento da brasilidade-colonial (o diálogo aqui é com a mobilização que Marcelo Ridenti faz de um conceito de Raymond Williams): o protagonista mergulha em uma reflexão histórica sobre o Brasil, o racismo sofrido na infância, o genocídio contra a população negra e os povos indígenas: “O pai preto, a mãe indígena / Esse Brasil foi feito pra nos dizimar / É, como muitos dizem, já / O futebol faz o povo esquecer a dívida / É hora de usar os pés pra fazer política! / Enquanto ele toma distância, lembra da infância / Pensa que pode fazer sua gente feliz / Isso é pelos meus pais ou meu país? / Escuto meu coração ou o que a razão me diz? / Dos que vivem entre balas e fuzis, a lousa e o giz / É pelos Tupis Guaranis, Kaiowás, Cariris / Pelos que morreram nas mãos da polícia”. Este single ser lançado em ano de Copa, com tal problematização politizada de que errar um pênalti e prejudicar a seleção pode, na realidade, ser a ação mais ética a ser feita, é um claro sintoma de esgotamento de uma determinada imagem histórica de nação - aquela em que samba e futebol se tornaram símbolos de uma integração política e cultural seletiva dos trabalhadores racializados deste país. Estamos definitivamente em outra quadra histórica, aquela de destruição do mito da democracia racial e da passagem da dialética da malandragem para a dialética da marginalidade - e por isso o samba no single está subordinado ao rap. A faixa termina como o que se convencionou chamar de “filme francês”: um final em aberto - nunca saberemos o sentido histórico e político que o protagonista decidiu atribuir à sua ação social de cobrar aquele pênalti: ganhar a Copa e redimir a nação ou então denunciar o Brasil como uma máquina de dizimação - aliás, seria o Brasil passível de redenção? A pergunta cai nas costas de cada um de nós: qual “mensagem para o mundo” queremos enviar com as brasilidades que nos engajamos em construir?
8 – [álbum] Jáder, Deixa o Mundo Acabar [PE]
Jáder está de volta! Este segundo disco expande o seu universo musical, considerando que o seu primeiro trabalho, QUEM MANDOU CHAMAR??? (2022) é um projeto estético consistente e inovador, baseado no piseiro, em vertente queer - escutem também! Desta vez, também sob produção de Barro e Guilherme Assis, as faixas passeiam por galope, xote, brega, funk, pagode, rock e bachata (e talvez com temáticas menos disruptivas do que no primeiro álbum, o que faz sentido em uma unidade forma-e-conteúdo com orientação mais pop, mesmo que alternativo). Achei os feats que foram lançados como singles, antecipando o disco, como superiores aos feats “inéditos” no álbum: se “No Mar” (c/ Totó de Babalong) e “Volta” (c/ Jaloo) já tinham entrado em minhas playlists de verão e outono de 2025, “Fica Comigo” (c/ Joyce Alane) e “Pessoa Preferida” (c/ Mariana Aydar) acabaram não tendo o mesmo impacto para mim. Já na faixa de encerramento, “Deixa o Mundo Acabar", vemos a oscilação entre o social e o pessoal, o que nos leva a refletir se se trata do fim do mundo ou do fim de um mundo. Afinal de contas, existem mundos e mundos a serem criados, vividos, destruídos e reconstruídos!
9 – [single] Manoel Cordeiro, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz e Pupillo, “Fim de Festa” [PA, CE, SP e PE]
O mestre da guitarrada Manoel Cordeiro, paraense, gosta de projetos estéticos que explorem pororocas de guitarras com distintas origens geográficas. Isto já tinha ficado claro com o disco instrumental Estado de Espírito, criado em conjunto com o guitarrista do BaianaSystem, Roberto Barreto (e também produzido pelo percusionista pernambucano Pupillo). Aqui, temos o encontro da guitarra paraense com a guitarra distorcida de Fernando Catatau, líder da banda cearense Cidadão Instigado. O single é, na realidade, uma regravação de um sucesso de Manoel dos anos 1980. Bora prestigiar a MPB feita na Amazônia (em diálogo com o Nordeste)!
10 – [álbum] Paola Lappicy, Coisas Que Eu Quis Te Dizer Antes de Tudo Acabar (mar. 2026) [DF]
Para atiçar a curiosidade de vocês com relação ao disco destacado na capa da newsletter: imaginem uma situação hipotética sobre como seria um encontro musical entre Itamar Assumpção, ícone da contracultura paulistana, e o pianista pernambucano Amaro Freitas - mas com o detalhe gigante de que esta confluência se dá no meio de uma ponte construída inteiramente por inventivos beats eletrônicos. Este é o universo estético criado por Paola Lappicy que, além de pianista e tecladista, é também antropóloga. Ainda em termos musicais, “Me Leve Para Outro Lugar” tem a sonoridade mais próxima a Itamar; já “A Noite é Linda Como o Céu da Tua Boca” é um brilhante sincretismo entre forró, piseiro e trap (o que mostra certa orientação nordestina da brasiliense) - e, apesar do brilhantismo, nem sequer é a melhor faixa do disco... Fico alternando entre eleger “Começo do Infinito” (que brinca inteligentemente com a polissemia da palavra “grave”: a gravidade da situação sociopolítica, a gravidade da física, a gravidade da voz de Pavarotti) e “Coração Cheio”, um tecno-samba segundo o Pop Fantasma, e que diz: “Meu coração é cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio / Como um rio / Meu coração é cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio cheio / E vazio”. Dúvida dilacerante tornada beleza poética: como poderia um rio caudaloso não encontrar vazão e se tornar o seu contrário? Única microfrustração foi o piano sem beats em “Espumas ao Vento” (clássico do forró, composto por Accioly Neto e eternizado por Fagner e por Flávio José); fiquei pensativo: teria sido intencional, para se afastar das versões eletrônicas de Mariana Aydar (2019) e de Alice Carvalho (2023)? No mais, a dimensão poética me atravessou repetidas-e-repetidas vezes, nas diferentes formas de tematizar as tais “coisas que eu quis te dizer antes de tudo acabar”. Canções se tornam poderosas quando ressoam, resgatam e ressignificam nossas emoções e me vi colocado defronte aos meus amores, longos ou curtos, em seus ápices e seus fins. Com “Só quem já deitou na tua coxa quente / sabe como a vida pode / Ser só isto e se bastar” (“Me Leve Para Outro Lugar”), fiquei em dúvida se era “coxa” ou “colcha” - de qualquer forma, ambas funcionariam para mim (rs): deitando na “coxa quente” da primeira paixão em uma viagem para Ouro Preto e olhando pra vastidão do céu ou então na “colcha quente” da paixão mais recente, na cama dela em uma fria madrugada de inverno que “deu em nada” (como diria Luiz Melodia). Já com a oscilação tripla entre a negação estrutural e atemporal, o ceticismo localizado de forma contingente no presente e, por fim, o dever ser de um futuro melhor, fui invadido pelas lembranças do ocaso do casamento: “Isso não vai melhorar / Hoje não vai melhorar / Isso tem que melhorar” (“Isso Tem Que Melhorar”); quando passa a ser inevitável reconhecer o fim do único amor vivido até então fora da família? Por último, as múltiplas descrições de uma cena paulistana, o que busca convencer as pessoas forasteiras do batismo de fogo a partir do qual elas passam a pertencer à Selva de Pedras: “Em São Paulo é de casa quem já chorou no metrô” (“Choro no Metrô”) - pra mim, que nunca fui estrangeiro nesta cidade, foram consecutivas segundas-feiras à tarde, lá pelo fim de 2024, sempre subindo a rua em direção ao Metrô Ana Rosa e chorando pela paixão mais intensa suplantada pelo desencontro amoroso mais surreal e infundado que já me atropelou. Enfim, um discaço, pela imaginação musical experimental (mas acolhedora) e pela poesia intensa, tocante e cortante; escutem agora mesmo e embarquem em suas próprias memórias!
11 – [álbum] RDD, Hot Sauce [BA]
Trabalho solo do fundador da banda Àttooxxá (cujo projeto estético pode ser sintetizado como a digitalização do pagodão). Produzido pelo próprio RDD, o álbum elabora os sons da Bahia em uma busca criativa de articular o subnacional-popular da constelação baiana e o internacional-popular (um pop global): a “união da Bahia com o mundo, e do mundo com a Bahia”, passeando por “pagodão baiano, samba-reggae, arrocha, funk, afrobeats e o dancehall”, com temas obviamente picantes, como entrega o título do disco. Participações especiais de Rael, Rachel Reis, Rincon Sapiência, Karol Conká e muitos outros. Destaques musicais para mim foram as faixas “Sobe Fogo” e “Sextô”.
12 – [álbum] Silva, Rolidei [ES]
Como reconheceram todas as resenhas que eu li sobre este disco, um trabalho muito mais “solar” do que seu penúltimo álbum. Embora Encantado (2024) tenha suas oscilações internas de qualidade, era um trabalho não apenas mais ambicioso como também mais denso - mas, aparentemente, a recepção no fanbase não foi das melhores. De fato, a apresentação de Silva que eu vi no Nômade Festival do ano passado mostrou uma recepetividade travada às faixas mais lentas que ele lá apresentou. Rolidei é leve (e relativamente mais acelerado), mas também em sua despretensão acaba se tornando um trabalho menos impactante e memorável. Pareceu-me uma escolha, até compreensível, de facilitar a vida do ouvinte. De qualquer maneira, a fantástica faixa “Ondina” ficou reverberando aqui por dias a fio: “Eu sou a água / Ai ai ai ai / Eu sou o ouro cravado na pedra do rio / Tão cristalina / Ai ai ai ai / Perto de mim é tão quente / Ninguém sente frio / Vem pra cá / Vem pra junto de mim / Pra ver de perto / O mistério / A beleza das águas tranquilas (tranquilas) / É oculto, é sagrado / E só vê quem muito ama / E você / Sabe bem / Ver as coisas bonitas”.
13 – [álbum] Sofia Malta, Comédia Romântica [PE]
Disco de estreia de Sofia Malta (conheci-a pela primeira vez como participante do reality show TOCA Revela, no qual ela foi vice-campeã), com faixas produzidas por Barro e Eutimyo e mobilizando grande parte da cena pernambucana que eu acompanho e admiro desde 2024: Mago de Tarso, UANA, Martins e o próprio Barro (que, além de produtor, é também compositor, cantor e violonista). No encadeamento das faixas e suas temáticas, fiquei me perguntando: seria o gênero cinematográfico do álbum uma comédia romântica, como no título, ou uma dramédia? Embora a música “chá” já tivesse chamado a minha atenção quando foi lançada como single (é um feat com Martins e eu inseri em minha playlist do verão 2025-26), minha favorita se tornou a faixa de abertura: “vilã” é, musicalmente, uma instigante transição do brega a um brega funk lento (especialidade do Barro; confiram seu próprio disco Língua ou então Megalomania, de UANA e também produzido por ele). Passando do destaque musical ao poético, a faixa de encerramento, “rita”, me pegou pela letra, intensa, visceral e autêntica: a frase “Gosto de mim, mas não é confortável ser eu” me calou fundo...
14 – [álbum] Thiago Elñino, Canjerê [RJ]
Agora, para o disco lançado em abril com maior enraizamento nos terreiros, você precisa ouvir este trabalho do rapper e educador popular Thiago Elñino, que nasceu em Volta Redonda e cresceu em Belo Horizonte. “Canjerê” significa festa e encontro para celebrar o sagrado, em língua de origem bantu. Em termos da forma musical, o fio condutor é um rap melódico sincretizado com várias sonoridades: afrobeats, “samba, pagodão baiano, guitarrada paraense, jongo e Folia de Reis”. As faixas contam com participações especiais de Bixarte (PB), Daúde e Sued Nunes (BA), Tássia Reis (SP), Felipe Cordeiro (PA) e muito mais (mas vejam só a orientação norte-nordestina que tanto prezamos por aqui!). Já em termos do conteúdo poético ou discursivo, embora “Futuros Ancestrais” seja a sua versão de crítica ao capitalismo tardio, o fio condutor do álbum como um todo é a temática da guerra (o que o movimento negro brasileiro contemporâneo chama de genocídio da população negra e que Paul Gilroy se refere como o “terror racial da supremacia branca”); neste contexto, as religiosidades e as sonoridades afrobrasileiras são um instrumento de resistência não apenas à intolerância religiosa (nome brando para o racismo religioso) do presente, mas também ao massacre colonial de longa duração. Destaque musical são as duas faixas com a guitarra paraense de Felipe Cordeiro; e destaque poético e político para a faixa “O Chão do Meu Terreiro”: “Cês tão achando que são caçador / Mas na bênção de Oxóssi nóis te caça / [...] / Eu quero a cabeça do sinhozinho / Entre uma pedra e o fio da enxada / Eles vão dizer que isso é barbárie / Eles vão querer cancelar meu verso / Meu mano, eu quero é mais que eles se fodam / Eu tô jogando a morte deles pro universo / [...] / Pra que no final escravocrata nenhum / Tente ocupar espaço na minha mente”. Ao final da música, trecho de fala de Nego Bispo (o maior intelectual quilombola brasileiro) e menção ao livro Torto Arado, de Itamar Vieira Jr. Ainda quero escrever mais profundamente sobre este discaço!
Outros lançamentos do mês de Abril* de 2026
*todas as indicações abaixo são de abril, exceto aqueles com indicação contrária entre parêntesis
[single] Ananda Paixão & Johnny Hooker, “Pedacin de Mim” [PE]
[single] Anna Suav & MC Lizzie (feat. Lastra), “Segredo” [AM e RJ]
[álbum] Bia Soull, PORNOGRAFIA AUDITIVA [PR]
[single] CHAMELEO & Vivian Kuczynski, “Curvas” [PR]
[single] Cristal & DJ Chernobyl, “South Side (Dnb Remix)” [RS]
[single] Dandy BJ & Joss Dee, “Praiana” [BEN-BRA e ANG-BRA]
[single] Duda Beat & Filipe Toca, “Olhar de Quem não Presta” [PE]
[álbum] Ebony, KM2 (De Luxo) [RJ]
[EP] Febem, Fleezus & CESRV, BRIME!! [SP]
[single] Fernanda Hofmann, “Todo Amor Que Dura” [TO]
[álbum] Hiran, IMUNDO [BA]
[single] Gugs & Célia Sampaio, “Novo Dia” [MA]
[álbum] Isabela Moraes, Tem Alguém Aqui (mar. 2026) [PE]
[álbum] Jambu, MANAUERO (DELUXE) (mar. 2026) [AM]
[EP] Jefferson Carvalho, Apaixonado por Você (Bachata Remix) (mar. 2026) [MA]
[single] Jefferson Placido, “ Tupi de Brás de Pina” [RJ]
[álbum] Jovem Dionísio, Migalhas [PR]
[single] Juliana Linhares, “Depois do Breu” [RN]
[single] Laura Schadeck & CANETARIA, “Quero Sim, Quero Não” [RS]
[single] LEOA & Rudie, “Mira Tu (Fanatismo)” [RN]
[single] Luiza Dutra, “Tropical” [ES]
[EP] Matheus Pojo, Inverno Amazônico (fev. 2026) [PA]
[álbum] MC Soffia, Soffisticada (mar. 2026) [SP]
[single] Muca, Roberto Menescal & Josyara, “Ladeira” [SP-ING, ES e BA]
[single] Pedro Emílio & Luedji Luna, “Reticente / Coisa Gostosa” [BA]
[single] R-GO & Jota.pê, “Tá Aê” (Afro Remix) [? e SP]
[single] Regiane Araújo (feat. Helton Borges), “Núcleo Terrestre” [MA]
[álbum] Souto MC, LUNAR (mar. 2026) [SP]
[single] tatiana nascimento, “Sussuarana (que lombra!)” [DF]
[EP] Tom Ribeira, Pedaço (mar. 2026) [SP]
[EP] Tuyo, Tuyo [2016] [PE]
[álbum] Zeca Baleiro, Zeca 60, Vol. 1 [MA]
[álbum] Zeca Baleiro, Zeca 60, Vol. 2 [MA]
[álbum] Zeca Baleiro, Zeca 60, Vol. 3 [MA]
[álbum] Zeca Baleiro, Zeca 60, Vol. 4 [MA]
Re/descobertas tardias altamente recomendadas
[álbum] Ananda Paixão, Cajuína (2024) [PE]
[faixa] Armandinho e os Rubis da Princesa, “Sonho Lindo” (2022) [BA]
[álbum] Arthur Nogueira, Brasileiro Profundo (2022) [PA]
[álbum] Bruna Alimonda, Estado Febril (2024) [PE]
[EP] Lambada da Serpente, Lambada da Serpente (2025) [DF e RN]
[álbum] Pratanes, Azeite (2024) [DF]
[álbum] Reiner, ELÃ (2024) [PA]
Shows* de Abril de 2026
*a numeração é anual, não mensal (por isto não começa no nº 1)
16 – [SP e PA] Gustavo Galo e Arthur Nogueira: Música e Poesia | Casa Odette, 10 abr.
17 – [SP] Bebé: Lançamento do disco Dissolução | Centro Cultural São Paulo (Sala Adoniran Barbosa), 17 abr.
18 – [PA, AM e AP] Aíla, Djuena Tikuna e Patrícia Bastos: As Amazônias | Caixa Cultural São Paulo, 18 abr.
19 – [RJ] Ava Rocha, Nektar | Bona Casa de Música, 24 abr.
20 – [SP] Baile do Brime | Audio, 25 abr.
21 – [MG] Nina Maia, Inteira | Casa Natura, 30 abr.
Cartografia da imaginação musical brasileira
Por onde viajei em abr. 2026?
NORDESTE
– PE (x5): Ananda Paixão, Bruna Alimonda, Jáder, Pupillo, Sofia Malta
– BA (x4): Agnes Nunes, Armandinho e os Rubis da Princesa, BUHR, RDD
– CE: Fernando Catatau
– MA: Betto Pereira
SUDESTE
– SP (x5): Bebé, Brime, Fabio Brazza, Gustavo Galo, Gustavo Ruiz
– RJ (x4): Alice Caymmi, Anitta, Ava Rocha, Thiago Elñino
– ES: Silva
– MG: Nina Maia
NORTE
– PA (x5): Aíla, Arthur Nogueira, Eduardo Barbosa, Manoel Cordeiro, Reiner
– AM: Djuena Tikuna
– AP: Patrícia Bastos
CENTRO-OESTE
– DF (x3): Lambada da Serpente, Paola Lappicy, Pratanes



