#26. Junho de 2026
Lançamentos, descobertas e shows do último mês: BaianaSystem, Clau Aniz, Infinito Latente, Os Amantes, singles da Copa do Mundo e mais
Esta edição da newsletter chega com um pequeno atraso (c’est la vie: fui atropelado pelas vidas profissional e pessoal), mas espero que a qualidade dos lançamentos (e das análises rs) compense isto para vocês. Teremos aqui muitos elementos produtivos para pensar o Brasil contemporâneo: a MPB mais interessante de hoje passa menos pela nostalgia (entendedores entenderão) e mais pelo experimental (Clau Aniz) e pelo indie pop (Infinito Latente); temos também a expansiva transnacionalização-popular do subnacional-popular baiano (com o BaianaSystem se autorrevisitando e se autorreimaginando); e, por fim, o Nordeste (com Mainha do Brega) e o Norte (com Os Amantes) unidos no brega!
Aliás, fiquei extremamente feliz em me deparar com um mapa produzido pelo site de jornalismo independente De Olho Nos Ruralistas, em seu dossiê sobre o uso de dinheiro público em shows musicais. O foco central da reportagem é a conexão entre sistema político, agronegócio e artistas do sertanejo. Contudo, na página 14 do PDF (que pode ser baixado aqui), temos acesso ao mapa “Dois Brasis”, que revela como o sertanejo é onipresente no Mega-Centro-Oeste (que abarca não apenas a região Centro-Oeste propriamente dita, mas também as regiões Sudeste e parte do Sul, no que é, hoje, o centro do dinamismo econômico brasileiro, graças ao modelo neoextrativista, baseado na exportação de commodities e na nova dependência com a China), mas que nas regiões Norte e Nordeste, existe uma quebra deste monopólio e, portanto, o protagonismo de outros gêneros musicais (o que nos leva a pensar quais são as bases sociais e materiais para esta outra articulação cultural e simbólica): piseiro; brega/arrocha; forró romântico; e axé/pagodão (nas categorias da própria pesquisa jornalística). No meu entender, isto é, em grande parte, uma bem vinda confirmação empírica de caráter quantitativo e espacial da principal hipótese guia este Substack há um ano (sim, fizemos aniversário): a emergência de uma coalizão musical Norte-Nordeste, que existe de forma paralela à atual hegemonia do sertanejo através da grande indústria cultural.
Por falar em nação, criei desta vez uma subseção na seção de lançamentos, conforme fui colecionando nos últimos meses não figurinhas do álbum da Copa do Mundo de 2026, mas sim singles compostos em torno do futebol e da Copa. Vocês poderão acompanhar como cada uma das articulações singulares entre formas musicais sincréticas (passeando por samba, bossa, funk e rap, quase sempre com destaque para o cavaquinho como símbolo de brasilidade) e determinados conteúdos poéticos projeta quatro diferentes imagens políticas de nação: (i) uma bossa latinizada que insere o nacional em um arco transnacional; (ii) a periferia que apostava na ascensão individual na união de rap e samba; (iii) a favela que sintoniza unificada no YouTube sob um cavaquinho-funkeiro; e, por fim, (iv) um funk-samba que não esconde o Brasil como o país das contradições. E uma quinta faixa, de bônus; com direito a playlist reunindo todas elas, os links estão lá embaixo.
Últimos comentários desta introdução, que já se alonga. Reparem que aqui temos um elogio à imaginação musical não apenas na dimensão da produção, mas também na da distribuição (a banda Os Amantes se junta a artistas como Bruno Berle em tentativas de disponibilizar seus discos por fora dos streamings já tradicionais). Na dimensão da recepção, acabou rolando um declínio considerável na quantidade de shows (de 10 em maio para 3 em junho - o ritmo insano anterior era insustentável). E para finalizar confiram meu note no Substack ou meu post no Instagram sobre 70 discos nacionais relevantes do 1º semestre de 2026. Convido vocês a explorarem a lista e me contarem o que está fora do meu radar! Sempre bom expandir o mapeamento da imaginação musical brasileira.
Dez lançamentos de Junho* de 2026 altamente recomendados
*todas as indicações abaixo são de junho, exceto aqueles com indicação contrária entre parêntesis
1 – [álbum] BaianaSystem, O Mundo Dá Voltas Dando Voltas pelo Mundo [BA]
O BaianaSystem já tinha lançado um dos mais importantes discos do ano passado (O Mundo Dá Voltas - resenhado aqui). Agora a aclamada banda (ganharam o Grammy Latino de 2025) revisita suas composições, através de uma circulação global: a ordem das faixas é mantida, mas as versões refix implicam uma reimaginação musical de si mesmos, no sentido de que realmente parece um novo álbum. O de 2025 já tinha elementos de participação internacional, como nos casos do rapper português de ascendência caboverdiana Dino D’Santiago e do escritor angolano Kalaf Epalanga, ambos em “Porta-Retrato da Família Brasileira”, e da chilena Claudia Manzo em “Agulha”. Além disso, embora o alfa e o ômego da viagem musical fosse Salvador, também havia paradas no rap paulistano (Emicida), na Praia do Futuro em Fortaleza, a guitarrada paraense (Manoel Cordeiro) e a poesia potiguar (Alice Carvalho). Contudo, agora, em 2026, o subnacional-popular baiano é entrelaçado de modo muito mais radical com a dimensão transnacional-popular, o que se envidencia com a participações de artistas do Sul Global (como a nigeriana Elestee e a dupla colombiana Queens Tafari, que expandem a transnacionalidade diaspórica ao cantarem em inglês e espanhol) e produtores europeus (como o britânico Seiji, o português Branko, o espanhol Rico Rosa e o francês Philippe Cohen Solal). Mas não pára por aí: produtores brasileiros também expandem a sonoridade destes astros da constelação baiana, como nos casos do paulistano Dj Nyack, do carioca Ruxell e dos paraibanos Chico Correa e Furmiga Dub (aliás, a pessoa perfeita para reimaginar em chave eletrônico-experimental a pororoca entre as guitarras baiana de Roberto Barreto e paraense de Manoel Cordeiro, um epílogo ou apêndice do universo musical do fantástico disco Estado de Espírito, de 2024). Minha impressão é que a língua franca se tornou a música eletrônica de forma geral e, de modo mais específico, o afrobeat (gênero musical originado na Nigéria, com Fela Kuti; seu filho, Seun Kuti, inclusive canta, pelo que eu entendo, em iorubá e toca saxofone na última faixa) - embora haja espaço também para o reggaeton (como em “Magnata” que, na versão original, me soava a faixa mais desinteressante do disco anterior e agora se tornou algo radicalmente diferente). Destaque máximo é o refix de “Cobra Criada/Bicho Solto” (elaboração poética e musical da posição da banda baiana no campo musical brasileiro: no midstream - nem mainstream, nem underground), produção de Tropkillaz e que já havia sido lançado como single em fevereiro e aqui microrresenhado. Mas quase todas as faixas merecem sua atenção, viu? Auge da imaginação musical no mês de junho!
2 – [álbum] Clau Aniz, Mácula [CE]
Vejam como é importante a rede de apoio e solidariedade entre artistas: cheguei aleatoriamente neste disco através do Instagram de Negro Leo, que foi uma espécie de tutor da cantora e compositora cearense na Laboratório de Criação em Música da escola Porto Iracema das Artes entre 2023-24. Oscilando entre música experimental e canção popular (como, aliás, o show do casal Negro Leo e Ava Rocha, descrito na newsletter do mês passado), este é o segundo disco de Clau Aniz, uma mistura de “MPB experimental, krautrock, ambient e post rock” segundo a resenha do portal Pop Fantasma, além de “valsa”, “ambient”, “synth-não-pop” e “kraut blues”, tensionando as fronteiras entre gêneros musicais, como descreve o Substack Arrepiô (em “minha casa ardendo em mim”, a compositora canta “Atravessarei sozinha / O sertão que vivem em mim”, poetizando e musicalizando um certo Nordeste). Já os destaques para mim foram as composições “rubra pedra e cal” (com momentos de indie rock) e “e olhar de longe as brasas que dançam na superfície”: a mais linda faixa, que começa tocante e melancólica e conduzida pelos instrumentos de sopro – “Abismos escapulidos da boca / Tuas lonjuras me calam / Meu tempo é o das montanhas / Ligeirezas não me alcançam / Haviam palavras nas mãos / E nos olhos haviam palavras no chão e nos gestos / Haviam palavras no que não fizemos” –, mas da metade para frente o andamento se altera, com a guitarra e a bateria tomando a frente – “O mundo a encolher / O mar a se aproximar / Eu tenho os olhos em você / E você tanto de mim / O mundo a encolher / O meu peito a gritar / Há de sofrer / Medo até o fim”. Uma lindeza só.
3 – [álbum] Infinito Latente, Sem Início Nem Fim (jan. 2026) [SP]
Banda paulista que conecta interior (Taubaté, no Vale do Paraíba) e capital lança seu primeiro disco, um trabalho melancólico e tocante, transitando por MPB, indie pop e lo-fi. Destaques poéticos são “Fora do Ar” (“Ser e estar interior de mim / Anterior, posterior costuram-se no tempo / Me deixe observar debaixo desse céu / Desenrolar a linha viva desse carretel / De sentimentos”) e “De Canto” (“Tava me olhando de canto de olho, do canto da sala / Me enrolando no canto da boca, no canto da fala / Já é pra lá das dez e você não vem pra cá / Tô te esperando, só falta você chegar”). Mas destaque máximo para mim é a excelente “Nosso Quadro”, uma das minhas favoritas deste inverno, um pop swingado, quase sambístico, que deságua em um rock (no canto, na guitarra e na bateria), forma musical que expressa o conteúdo poético da crescente intensidade emocional de uma tomada de consciência: “Com você eu tive o mundo congelado no segundo que percebi / Que eu amo você / Que eu amo você”. Ao vivo é ainda mais impactante!
4 – [álbum] Mainha do Brega, Recordações (Ao Vivo) (mai. 2026) [PI-BA]
Inicialmente um fenômeno virtual de viralização nas redes sociais (com dezenas de milhares de seguidores e milhões de curtidas e visualizações), a costureira Fátima Mascarenhas assumiu aos 63 anos o fantástico nome artístico de Mainha do Brega, incentivada por seu filho. Destaques do álbum são as versões de “Porque Brigamos” (gravada pela cantora Diana, uma poetização da chama do amor que vai se apagando diante das repetidas brigas: “Ó meu amado, por que brigamos? / Não posso mais viver assim sempre chorando”) e “Naquela Mesa” (a mais triste música brasileira já composta, na minha humilde opinião - homenagem póstuma de Sergio Bittencourt ao seu pai, Jacob do Bandolim).
5 – [álbum] Os Amantes, Amar, AMOR! [PA]
Segundo volume d'Os Amantes, grupo composto pela cantora, compositora e produtora Jaloo e a dupla igualmente paraense Strobo. Do neida, o perfil da banda anunciou um show de lançamento deste disco no SESC Pompeia (infelizmente eu estava na gringa, não pude comparecer). A outra inovação em termos de divulgação, que poderíamos chamar de exercício crítico da imaginação musical na dimensão da distribuição, é que o álbum não está imediatamente disponível nas plataformas tradicionais de streaming (embora numa entrevista seja dito que será lá disponibilizado em breve). Para escutá-lo agora, você precisa acessar o Samply App, neste link. Se você, como eu, ignorava a existência deste site, trata-se de uma plataforma na qual músicos e produtores compartilham faixas e recebem feedback, em uma lógica diferente do Spotify e mais próxima de Bandcamp e SoundCloud (pelo que eu entendi, conforme é possível ouvir sem pagar, trata-se de uma disponibilização gratuita das músicas). Para ouvir diretamente do seu celular, é importante saber que se trata de um PWA (Progressive Web App), um site que se comporta como um aplicativo - ao entrar no link que eu disponibilizei aqui, se você clicar nos 3 pontinhos no seu navegador, clique em seguida em “Adicionar à Tela de Início” e aí vai ficar disponível como se fosse um app igual a outros em seu celular. Musicalmente, as faixas são elaborações contemporâneas do brega paraense (com toques de pop rock) e, poeticamente, as canções abordam a intensidade do amor, da paixão e do coração partido e sofrido. Alguns dos destaques são as duas primeiras e as duas últimas faixas: “Acho que enlouqueci”, “Obsessão”, “A primeira vez” e “Seja livre”. Esta última poderia se referir à liberdade sexual ou queer, mas pela letra entendo que se trata mais de uma autocrítica da sofrência que está na base do brega, ou seja, da possibilidade de se libertar da intensidade romântica entrelaçada com o sofrimento e com a dissolução das fronteiras entre o eu e o outro: “Dá pra se divertir sem mergulhar demais / Você / Merece sentir sem se doar demais / Livre, livre, livre / Seja livre” - um bom aprendizado para os românticos incuráveis deste mundão. Um dos melhores discos lançado em junho de 2026! Único defeito é ser curtinho, mas isto, por outro lado, facilita ouvir em looping: certamente foi o álbum que mais ouvi no mês passado…
6 – [single] Tom Ribeira & Agnes Nunes, “Vc Assim” [SP e BA]
O cantor paulista (nascido em Botucatu) e a cantora baiana (nascida em Feira de Santana e crescida no interior da Paraíba) formam um jovem casal e aqui se unem para compor e cantar de forma alternada ou sobreposta, oscilando lindamente no universo musical que Agnes tem explorado na transição entre seu disco de 2024, O Amor e Suas Variáveis (mais MPB) e seu EP de 2026, Novela (mais indie pop): “Eu vou querendo você / E vou perdendo as horas / Eu tô ligado em você / Do jeito que tu olha além / Do que eu queria dizer / Te quero mais que tudo / Que eu consiga dizer / As vezes fico mudo olhando você”. Também ouvi em looping durante o mês…
Seção lançamentos em torno da Copa do Mundo de 2026
7 – [single] Gorilla Concept Music, Don L & Nave, “Vai Me Ver Jogar” (mai. 2026) [ESP, CE e SC]
Nesta parceria com o selo Gorilla Concept Music, sediado em Barcelona, Don L começa flertando com o que parece ser uma brasilidade bem tradicional: um pouco de bossa, um pouco de samba, “pura malandragem” e o jogo bonito do saudoso futebol-arte: um “driblador dos trópicos”. Contudo, conforme a faixa avança, o favorito do seu favorito passa a acrescentar latinidade (tanto espanhola quanto propriamente latino-americana). Pela via musical, temos a entrada em cena de um violão hispânico. Já pela via conteúdo do poético, somos levados a viajar por vários países: partindo da Espanha, mas em seguida circulando pela República Dominicana, México (“Oaxaca”), Colômbia (“Cartagena”), Chile (“Neruda”), Peru (“Suzana Baca”) e especialmente Cuba (“Havana”, “rumba”, “Celia Cruz”), o que dá algum tom político à latinização da brasilidade. O resultado desta articulação de camadas é uma espécie de sincretismo hispano-brasileiro: tanto pelo protagonista (“me chama El Don”) quanto por este ápice aqui: “eu quero ver seu reggaeton no meu baile funk” (lembremos do lugar do feat da Shakira no último álbum da Anitta para entender que, por trás desta aproximação está um elemento afropercussivo). A conclusão se dá por uma coalizão espaço-temporal inusitada: “Maradona e Garrincha, imagina o rolê”. Ou seja, é verdade que existe a defesa de uma certa nostalgia da brasilidade (tanto na sonoridade que parte da bossa quanto na poesia: “Vai me ver jogar / Somos os melhores do mundo”), mas não dá para não considerar o deslizamento aos poucos da sua subversão: uma forma específica de transnacionalização da brasilidade, muito bem-vinda diante dos neonacionalismos à (extrema) direita e à esquerda.
8 – [single] Rincon Sapiência & Marissol Mwaba (feat. Péricles) “Homem Gol” [SP, DF e RJ]
Aqui temos um single que antecipou o novo disco do rapper paulistano Rincon Sapiência (acho inclusive que se tornou a melhor faixa de Um Corpo Preto). Em termos da forma musical, a sonoridade do samba reativa a brasilidade tradicional: nós somos (fomos?) o país do samba e do futebol. Já o ponto de partida do conteúdo narrativo é outro, menos conciliatório: a desigualdade social e escolar (“mal na escola, não sabe escrever nenhum texto”). É como se a composição se perguntasse como seria possível então tentar brilhar e poder “alcançar o clichê” do sonho de comprar uma casa para a sua própria mãe? O fio condutor narrativo é uma encruzilhada com duas saídas possíveis: o “homem bomba” que “sabe usar uma pistola” e aposta no mundo do crime; e a figura presente no título da música, o “homem gol”: “O sonho de mudar de rota mesmo na derrota ser um vencedor [...] Deixar de ser um homem bomba pra se tornar um homem gol”. Já na parte mais bela, cantada por Marissol Mwaba, escutamos: “Cada vida uma história, a gente desenrola, sei que o jogo vai virar / Bola no pé e coração com fé, que a estrela vai brilhar / Sangue, suor e raça, vai ter barreira, mas tudo passa / Sorrir é um gol de placa”. A oposição narrativa central é, portanto, o homem-bomba versus o homem-gol. De um lado a aposta na (auto)destrutividade, um beco sem saída. De outro, a aposta otimista e esperançosa em sua substituição e dissolução pelo que parece ser a antiga promessa de ascensão social via futebol (aparentemente um sonho de infância ou adolescência do próprio Rincon). Apesar da beleza sonora e poética, fica uma pergunta: poderia a virada de jogo ser algo puramente individual e monetário ou seria preciso mudar o próprio jogo, em uma dimensão mais social e estrutural?
9 – [single] Mc Kekel, Mc Phe Cachorrera, MC Kapela & DJ GH (feat. MC Mari & Mc J9) “Aqui É O Brasil” [vários estados]
Para vocês verem como a inteligência ou a imaginação musical podem surgir de lugares inesperados, como o encontro de dois gigantes da grande indústria cultural: a CazéTV, emissora oficial da Copa de Mundo de 2026, e a KondZilla, uma das maiores produtores de funk do país. Quero chamar inicialmente a atenção para a forma musical: a faixa abre e é toda estruturada com um sample de cavaquinho. O que poderia ser lido como uma mera peça publicitária parte do samba para em seguida desconstruí-lo em elementos que possam ser manipulados e, assim, reconstruídos, deslizando para a percussividade do funk. Qual é o significado histórico desta forma musical? Eu diria que ela explicita (e abraça) abalos sísmicos na nossa identidade nacional que dois dos maiores rappers brasileiros não quiseram reconhecer (me refiro a Rincon Sapiência e Don L; embora seja surpreendente que ambos estão atentos ao movimento de aproximação entre rap e funk através da música eletrônica; confiram “Ponta de Lança (Verso Livre)” e “melhor Vida”, respectivamente). A poderosa frase-síntese desta composição coletiva é “terra do futebol e do funk”: o Brasil do paradigma nacional-popular era o país do samba, mas agora somos forçados a nos re-conhecer como país do funk. Trata-se de um novo elemento cultural dominante: uma forma periférica urbana específica, paralela à expressão musical do neoextrativismo do Mega-Centro-Oeste, a música sertaneja, que certamente pode ser considerada a fração dominante da sonoridade dominante (com o funk talvez sendo reconhecido como a fração dominada da sonoridade dominante - para brincar com as categorias bourdieusianas em torno da estrutura de classes sociais). Agora, é surpreendente que, graças ao pano de fundo estrutural e estruturante do sample de cavaquinho que complementa percussivamente o beat eletrônico, o “país do samba” acaba entrando pela porta dos fundos, funcionando como o que Raymond Williams chamaria de elemento cultural residual. Não é fascinante como os significados de uma peça publicitária podem transbordar sociologicamente sua função inicial? E com relação ao conteúdo discursivo, poético ou narrativo, o que poderíamos dizer? “Cultura, favela, raça, força, aqui é Brasil / Todos unidos por uma só caminhada”. Não estamos no paradigma nacional-popular, mas há aqui uma proposta de união de um país dilacerado por desigualdades sociais e divisões políticas, mas com um protagonismo, ao menos retórico, das periferias urbanas e da origem social dos jogadores da seleção antes de se profissionalizarem: “No campinho de terra lembro como era antes / Aqui é Brasil, terra do fut e do funk / Só tem favelado, bandeira azul e amarela / Fica colorido em todos beco da favela”. O que poderia ser um horizonte coletivo, não apenas do futebol voltar a ser central na construção de uma identidade socialmente compartilhada (e não apenas a aposta da música anterior, na ascensão individual que o futebol poderia proporcionar para os moradores das favelas e das periferias), neste ponto não dá para apagar a gênese da faixa, enraizada na nova grande indústria cultural: a unidade nacional é muito mais uma massa de espectadores ligados digitalmente na “transmissão da alegria” da CazéTV do que qualquer outra coisa (sem contar a polêmica em torno das perversas bets). Conforme o hexa não veio desta vez, é provável que os outros singles aqui analisados tenham uma relevância mais perene do que “Aqui É O Brasil”; mas não deixa de ser curioso como algo que parece simples ou ordinário possa render análises complexificadoras por revelarem a ascensão de novas formas de simbolizar a nação.
10 – [single] Amanda Magalhães, “Vida de Rei, Vida de Cão” [RJ]
Assim como Don L e Rincon Sapiência (e, portanto em contraste com nossos funkeiros contratados pela CazéTV), a forma musical armada pela cantora, compositora e produtora Amanda Magalhães parte do samba, mas rapidamente desliza para um funk bem anos 1990. Ou seja, embora o single comece com cavaquinho, cuíca e tamborim, rapidamente os beats eletrônicos e a cantoria um pouco falada lembram a Música Popular Carioca bem no estilo de uma Fernanda Abreu. De todos os quatro singles aqui destacados lançados em torno da Copa, eu diria que o seu conteúdo poético é o mais abertamente político: ela busca pensar e problematizar o Brasil como um país de contradições: o choro e o riso, riqueza e miséria, um povo caloroso, mas polarizado - a gente se ama e se odeia. E ao surgir a temática da miscigenação, poderia haver algum incômodo por ela estar reativando o mito da democracia racial, mas na verdade ela está buscando tematizar a singularidade do racismo brasileiro: “é tudo junto e misturado, mas é cada um por si”. No final das contas, as cores da bandeira não simbolizam identidade ou unidade: “é verde e amarelo a cor desta contradição”. O refrão é precedido pelo que parece ser uma pergunta retórica: “eu vivo uma vida de rei ou uma vida de cão? / Não, ah / Ah, não”. Não nos iludamos, a resposta vem em forma de pergunta: “É de cão, né?”. A pequena constelação de aproximar e contrastar as significações destes quatro singles permite identificar a inteligência musical e política de Amanda Magalhães: tecer uma abordagem da brasilidade que pode ser identificada como mais sociológica (social e estrutural) do que individual (a reativação da aposta em mobilidade e ascensão através do futebol) ou mesmo publicitária (superar as divisões aparentemente de baixo para cima, a partir das favelas e periferias, mas na verdade com o objetivo implícito de concentrar a audiência de espectadores assistindo os jogos da Copa num canal de YouTube que deixou de ser marginal para confrontar as Organizações Globo e se tornar parte de um novo mainstream). O Brasil das contradições permite revisitar a criatividade cultural dos rappers e funkeiros anteriormente analisados: cada um destes sincretismos musicais projeta diferentes imagens de nação, disputando o seu sentido político. De que lado você joga?
* * *
Por último, recomendo fortemente vocês revisitarem uma quinta música: “A Cobrança”, single lançado por Fábio Brazza em 31 de março de 2026 (sim, data oficial do golpe militar de 1964). Na época fiz uma microrresenha (não tão micro) desta brilhante faixa, provavelmente a mensagem política mais radical dentre todos os singles em torno da Copa do Mundo que eu analisei por aqui. Sem spoilers: ouçam o rap-samba e leiam minha interpretação…
Playlist
Copa 2026: Brasil em Disputa = Spotify | YouTube
Escute aqui os 5 singles lançados em torno da Copa do Mundo de 2026: o que está em jogo com a circulação de imagens conflitantes de nação? Os sincretismos entre samba, bossa, funk e rap projetam diferentes Brasis.
Outros lançamentos do mês de Junho* de 2026
*todas as indicações abaixo são de junho, exceto aqueles com indicação contrária entre parêntesis
[álbum] Amanda Sarmento, ECLIPSE [RJ]
[álbum] Bruna Lucchesi, Bandoleira (abr. 2026) [PR]
[álbum] Carlinhos Brown & Orquestra Ouro Preto, Afrossinfonicidade, Vol. 1 (Ao Vivo em Salvador) [BA e MG]
[álbum] Ellen Oléria, Canto de Casa Vol. 1 (mai. 2026) [DF]
[EP] João Merín, Melô do Pajé (jan. 2026) [BA]
[EP] Lagum, LAGUM - Ao Vivo no Bondinho (RJ) [MG]
[single] Leo da Bodega, “Vai Chover” [PE]
[single] Linn da Quebrada & Fernando Catatau, “NUVEM NEGRA” [SP e CE]
[álbum] Rachel Reis, Ao Vivo da Sereiona [BA]
[EP] YORI, BRASA [SP]
(Re)descobertas tardias altamente recomendadas
[álbum] Terno Rei, Violeta (2019) [SP]
[álbum] Valentim Frateschi, Estreito (2025) [SP]
[álbum] vários artistas, Atalfo 100 (2009) [vários estados]
Shows* de Junho de 2026
*a numeração é anual, não mensal (por isto não começa no nº 1)
32 – [SP] Valentim Frateschi no Bona | Bona Casa de Música, 04 jun.
Jovem cantor, compositor e guitarrista paulistano apresentou seu primeiro disco autoral em uma das casas de show mais intimistas da cidade. Momentos de aceleração rockeira convivendo com momentos de desaceleração, com direito à participação da violoncelista Francisca Barreto (em substituição a Nina Maia, que estava originalmente programada). Algumas músicas inéditas já prenunciaram a forma de seu próximo álbum!
33 – [SP e PA] Gafi do Amilcar convida Natália Matos: Almoço & Música | Casa de Francisca (salão), 06 jun.
Primeira vez que assisti um show neste esquema “Almoço & Música”. Tive a felicidade de presenciar o amadurecimento da parceria entre a banda de gafieira fundada por Amilcar Rodrigues e a sempre brilhante Natália Matos, cantora paraense radicada em São Paulo. Destaque para mim foi a incorporação de “Camisa Amarela”, clássico samba composto por Ary Barroso, em repertório que já havia sido testado no Tendal da Lapa e na Ocupação Fervo.
34 – [DF] Paola Lapiccy: Coisas que eu quis te dizer antes de tudo acabar | Casa de Francisca (Sala B), 18 jun.
Também foi a primeira vez que eu fui na Sala B, o espaço mais intimista da Casa de Francisca. A cantora, compositora e pianista Paola Lapiccy não apenas lançou um dos melhores discos nacionais de 2026 (um exercício de imaginação musical que articula seu piano com beats eletrônicos, com direito a pitadas de contracultura à la Itamar Assumpção) como também sustenta sozinha na apresentação o piano e a mesa de som. Impressionante!
Cartografia da imaginação musical brasileira
Por onde viajei em jun. 2026?
SUDESTE
– SP (x6): Gafi do Amilcar, Infinito Latente, Rincon Sapiência, Terno Rei, Tom Ribeira, Valentim Frateschi
– RJ (x2): Amanda Magalhães, Péricles
NORDESTE
– BA (x2): Agnes Nunes, BaianaSystem
– CE (x2): Clau Aniz, Don L
– PI: Mainha do Brega
NORTE
– PA (x2): Natália Matos, Os Amantes
CENTRO-OESTE
– DF (x2): Marissol Mwaba, Paola Lapiccy
SUL
– SC: Nave





Oi, Jonas. Tudo bom?
Eu trabalho como repórter no De Olho nos Ruralistas e gostaria de falar com vc. Pode me passar seu e-mail?