#6. Alegria negra
Resenha de "Onda", último disco de Rael: um rap paulistano, mas também nordestino e afrodiásporico
Rael, Onda (São Paulo: Laboratório Fantasma, 20 mar. 2025)
Passei muitas semanas aficcionado no último disco do rapper paulistano Rael. Para mim, Onda já entrou na lista de melhores discos de 2025 (junto com O Mundo Dá Voltas, do BaianaSystem, dentre outros que ainda vou resenhar por aqui).
Além de ser um momento de amadurecimento musical de Rael em comparação com sua discografia anterior (fazia seis anos desde o seu trabalho anterior), o álbum traz participações mais do que especiais (como diz o próprio artista: “Mais que um disco, seu festival na sua casa”), conectando o rap paulistano com diferentes estados (voltarei ao final da resenha às espacialidades construídas por estas parcerias e pelos estilos musicais mobilizados): Rio de Janeiro (Dom Filó, Ludmilla), Minas Gerais (FBC, Marina Sena), Bahia (Ivete Sangalo, Luedji Luna), Sergipe (Mestrinho), sem contar Mano Brown e Rincon Sapiência, respectivamente Zona Sul (Capão Redondo) e Zona Leste (Itaquera) de São Paulo capital. Interessante notar que, mesmo com este festival de participações estelares, duas das faixas mais belas do disco são apenas com Rael: “Repara” e “Chá de Lírio”.
Comparando com outros álbuns de rap lançados neste ano e bastante elogiados pela crítica especializada, por influencers musicais e por fãs nas redes sociais – tais como: Manual Prático Do Novo Samba Tradicional (Marcelo D2), Diamantes, Lágrimas e Rostos para Esquecer (BK), Quanto Mais Eu Como, Mais Fome Eu Sinto! (Djonga) e Assaltos e Batidas (FBC) – enxergo a unidade política e estética do projeto de Rael como muito mais interessante (vou deixar de lado, por ora, o último disco de Don L, por ser muito fora da curva de tudo o que foi produzido em 2025 dentro e mesmo fora do rap brasileiro e sobre o qual escreverei em breve).
Eu tenho insistido semanalmente aqui no Substack e também (quase diariamente) no Instagram que expandir as fronteiras da imaginação musical brasileira passa pelo sincretismo: a fusão e até mesmo práticas de subversão mútua entre diferentes ritmos e estilos. Onda traz um rap melódico, dançante e sensual, sincretizado com gêneros variados em cada uma das faixas: funk, soul, disco, afrobeat, R&B, pagodão baiano, forró, reggae, amapiano, dancehall e afrohouse (do que eu consegui identificar eu mesmo ou tendo lido em resenhas críticas). E tudo isto sem nunca perder a unidade musical do álbum, o que é um mérito impressionante.
Importante ressaltar como inúmeros artistas negros são citados e homenageados (na ordem de sua aparição pelas faixas e do que eu pude registrar): Tasha & Tracie, Luiz Melodia, Gilberto Gil, Cassiano (com centralidade), Djavan, Sandra de Sá, Carlos Dafé, Jorge Ben, Tim Maia, Edi Rock, Ludmilla e Exaltasamba.
A faixa-síntese tem o mesmo nome do disco e, nela, Dom Filó, que batizou o movimento Black Rio – movimento de contracultura criado nos anos 1970 e que é uma das fontes do movimento negro brasileiro contemporâneo –, declama, com sua voz grave, um breve manifesto: “Salve Rael, salve Mano Brown / O filósofo Friedrich Nietzsche declarou / Não acredito num Deus que não dance / E eu Dom Filó acrescento / Não acredto num fiel que não mexa / Corpos pretos dançantes, pensantes, libertos e esperançosos / Seguem como ondas, resistindo aos novos tempos / Em busca de futuras conquistas / Salve grande mestre Cassiano”.
Como disse um colaborador de Rael em seu perfil de Instagram, a proposta do álbum se conecta com o projeto Black Joy, o qual poderíamos traduzir livremente como “alegria negra” ou “alegria preta”. Ao contrário do que poderia parecer para uma leitura apressada e superficial, não se trata de exaltação ao hedonismo, pois o objetivo é descentrar intencionalmente das experiências de dor, sofrimento e violência oriundas da opressão racial, afirmando e celebrando corpos negros festivos, felizes e energizados, simultaneamente desejantes e reflexivos, como base de vínculos que combatam a solidão, o isolamento e a desvastação e plantem as sementes da resistência antirracista e da luta por liberdade (e por viver e não meramente sobreviver).
Este é o núcleo do projeto político do álbum, que atravessa todas as faixas com temáticas como: em primeiro lugar a sociabilidade da festividade noturna (“Na Pista Sem Lei”, “Outro Nível”, “Me Deparei com a Lua” e “Até o Sol Raiar”); a sensualidade (“Simbora!” e “Onda”); o sexo de forma mais explícita (“Na Minha” e “Vibe”); a inusitada referência ao encontro sexual de seus pais gerando a sua vida e a de seu irmão (“Saudade de Lascar”); a paixão (“Repara”, “Suave” e “Chá de Lírio”); e, por fim, o namoro monogâmico (“Meu Ioiô”), mas também a não monogamia (“Na Minha Cabeça”).
Para passar da dimensão política do álbum e retornar à sua dimensão estética, vou abordar aquela que é, de longe, minha faixa favorita: “Saudade de Lascar”. Trata-se do ponto alto (altíssimo!) de um verdadeiro interlúdio nordestino – as faixas 7 a 10, transitando entre Bahia e Sergipe –, quando Rael faz então uma linda homenagem ao pai (“Malanrdo bom, batuqueiro, swing de sanfoneiro, ficou de herança no meu DNA”) e reivindica o “tempero” pernambucano (“Nóiz somos zika, herdeiro, certeiro desse tempero que quem prova não quer mais parar”) – o mesmo “tempero” tão visível nos maravilhosos discos de 2024 dos pernambucanos UANA - em especial na faixa “Eu Tenho o Molho”, com participação do trapper Mago de Tarso - e Leo da Bodega, também no diálogo entre rap e ritmos periféricos (brega funk) ou populares (forró, xote, maracatu, cavalo-marinho) daquele estado.
A ideia inicial era que o seu pai – pernambucano – tocasse a sanfona, uma concepção instrumental que potencializa de forma genial e envolvente o beat e o flow, mas ele faleceu de Covid e, por isto, o convidado para tocá-la foi Mestrinho (discípulo de Dominguinhos, sanfoneiro de Gilberto Gil, colaborador de Mariana Aydar e, mais recentemente, parceiro de João Gomes e Jota.pê), o único artista que participa de duas faixas de Onda.
Sinto que esta é, de longe, uma das melhores músicas lançadas em 2025 (disputando, no momento, com “Deixa Molhar”, da compositora baiana Rachel Reis e produzida por Barro e Guilherme Assis – a constelação pernambucana continua resplandecendo forte). Uma tendência central da imaginação musical brasileira contemporânea é a ponte entre o orgânico e o digital, o que costuma aparecer na articulação criativa entre batucadas e beats. A cena musical maranhense independente, de Criola Beat a Enme Paixão, é um paradigma vanguardista deste desenvolvimento do material musical. E a música de Rael já abre dizendo: “Rael no beat, sweet / Quando eu tô batucando é sem limite”.
O seu brilhantismo está em uma forma incrivelmente original de atualizar esta tendência, por meio da subversão mútua do resfolego da sanfona ao flow do rap (mas também trazendo elementos percussivos do forró para compor com o beat), com o resultado de catapultar o suingue da música. E como disse Rael em entrevista sobre o processo de produção da faixa: “Aí é o Brasil. É o Brasil brasileiro. É o Nordeste, parceiro”, numa interessante definição contestatória do que seria o essencial da nossa nação (historicamente, a brasilidade esteve associada ao samba), desestabilizando hierarquias regionais e reposicionando o Nordeste no centro.
Assim, além do disco circular pela diáspora negra (dialogando com ritmos da Nigéria, da África do Sul e da Jamaica - respectivamente o afrobeat de “Repara”, o amapiano de “Vibe” e o dancehall de “Me Deparei com a Lua”) e mesmo que Onda venha do Sudeste (e, em menor medida, do Sul, devido ao fantástico produtor catarinense Nave Beatz, que também já trabalhou com Marcelo D2, Emicida e Don L), no fundo entendo que este álbum, feito por um filho de migrantes, acaba por participar da coalizão musical protagonizada pelo Nordeste brasileiro e que faz hoje avançar e recriar as fronteiras da nossa imaginação musical.
Absolutamente imperdível: escutem Onda!



É um dos meus discos favoritos de 2025! E tbm me chamou a atenção o tanto de artistas que ele cita que até montei uma playlist com os nomes que ele cita!! Legal demais o texto!!